Tupi or not tupi > Anita Malfatti: A Boba (1917)

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"Possuidora de uma alta consciência do que faz, levada por um notável instinto para a apaixonada eleição dos seus assuntos e da sua maneira, a vibrante artista não temeu levantar com os seus cinquenta trabalhos as mais irritadas opiniões e as mais contrariantes hostilidades. Era natural que elas surgissem no acanhamento da nossa vida artística. A impressão inicial que produz nos seus quadros é de originalidade e de diferente visão. As suas telas chocam o preconceito fotográfico que geralmente se leva no espírito para as nossas exposições de pintura. A sua arte é a negação da cópia, a ojeriza da oleografia.


Diante disso, surgem desencontrados comentários e críticas exarcebadas. No entanto, um pouco de reflexão, desfaria, sem dúvida, as mais severas atitudes. Na arte, a realidade na ilusão é o que todos procuram. E os naturalistas mais perfeitos são os que melhor conseguem iludir. Anita Malfatti é um temperamento nervoso e uma intelectualidade apurada, a serviço de seu século. A ilusão que ela constrói é particularmente comovida, é individual e forte e carrega consigo as próprias virtudes e os próprios defeitos da artista.

Onde está a realidade, perguntarão, nos trabalhos de extravagante impressão que ela expõe?
A realidade existe mesmo nos mais fantásticos arrojos criadores, é isso justamente que os salva. (...) "

OSWALD DE ANDRADE. A exposição Anita Malfatti. Jornal do Comércio. Notas de Arte. São Paulo, 11 de janeiro de 1918.
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A coluna Tupi or not tupi tem por fim divulgar as artes plásticas no Brasil a partir da Semana de Arte Moderna de 1922 até a contemporaneidade. Saiba mais sobre esta coluna aqui.

Tupi or not tupi > Anita Malfatti: Festa de São João com guirlanda

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[Anita Malfatti - Festa de São João com guirlanda]


Trecho de carta escrita por Anita Malfatti a Mário de Andrade
Para Mário de Andrade,
Caminho do Céu,
Estrada da Saudade:


(…)
Eu moro longe de São Paulo, tomo conta do meu jardim, arranco o mato e planto as flores e as árvores, rego quando posso, arrumo a casa e pinto as festinhas do nosso povo, que dão alegria ao coração de gente simples.


O grandioso e o majestoso, assim como a glória e o mágico sucesso me deixam calada, triste, mas as coisas fáceis de pintar, simples de se compreender, onde mora a ternura e o amor do nosso povo, isso me consola, isto me comove. (…) 


Tenho medo de ter desapontado a você. Quando se espera tanto de um amigo, este fica assustado, pois sabe que nós mesmos, nada podemos fazer e ficamos querendo, querendo ser grandes artistas e tristes de ficarmos aquém da expectativa.


Procurei todas as técnicas e voltei à simplicidade, diretamente: não sou mais moderna nem antiga, mas escrevo e pinto o que me encanta…
Anita Malfatti



In: Diário de São Paulo, São Paulo, 1955. Recorte sem indicação de dia e mês, Arquivo Anita Malfatti. [Veja aqui a carta na íntegra.]
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A coluna Tupi or not tupi tem por fim divulgar as artes plásticas no Brasil a partir da Semana de Arte Moderna de 1922 até a contemporaneidade. Saiba mais sobre esta coluna aqui.

Tupi or not tupi

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Inauguramos hoje uma nova coluna no Imaginário Poético: Tupi or not tupi, uma coluna que tem por fim divulgar as artes plásticas no Brasil a partir da Semana de Arte Moderna de 1922 até a contemporaneidade. O título da coluna é uma homenagem a Oswald de Andrade que lançou este grito de guerra em seu Manifesto Antropófago (1928) convocando poetas, escritores e artistas plásticos a abandonarem a tendência de realizarem cópias acríticas de tendências culturais européias e a redescobrirem a identidade brasileira nas artes. Portanto, a partir desta semana, você está convidado a se alimentar de arte brasileira da melhor qualidade aqui no Imaginário Poético. Comensalidade, camaradagem na mesa, é a cortesia da casa! Lave as mãos e sente à mesa, pois em breve será servida a nossa entrada!

dana paulinelli

Post-scriptum: negros são tupis, índios são tupis, brancos são tupis! ser tupi é ser brasileiro!

Existência de uma árvore (Rilke)

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O espaço, fora de nós, ganha e traduz as coisas:
Se quiseres conquistar a existência de árvore,
Reveste-a de espaço interno, esse espaço
Que tem seu ser em ti. Cerca-o de coações.
Ela não tem limite, e só se torna realmente uma árvore
Quando se ordena no seio da tua renúncia.



RILKE. Poema de junho de 1924, traduzido para o francês por Claude Vigée, publicado na revista Le Lettres, 4o ano, no 14,15,16,p.13. In: BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Tradução de Antônio de Pádua Danese. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p.205.

Poèmes à l'autre moi (Pierre Albert-Birot)

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Sou diretamente as molduras
Que seguem diretamente o teto.

Mas há ângulos de onde não se pode mais sair.





ALBERT-BIROT, Pierre. Poèmes à l'autre moi. p.48. In: BACHELARD, G. A poética do espaço. Tradução de Antônio de Pádua Danese. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p.153.

Flechas de Laocoon ----> Leilão de Concursados

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"Compradores, venham já ao mercado! Venderemos em praça pública vidas filosóficas de todo tipo e de princípios variados", assim Luciano dá início ao seu Leilão de Vidas. Pitágoras, Diógenes, o Cirenaico, Heráclito, Demócrito, Sócrates, o Epicúreo, Crisipo e Pirro entram no pregão. Uns são vendidos, outros não. Pois façamos também nós nosso próprio leilão. 


Em busca de vidas filosóficas fui até o mercado de filósofos da atualidade, a dita Academia, e lá, com efeito, encontrei vidas de todos os tipos. Portanto, venham, venham que darei início ao nosso leilão em ágora virtual. A primeira vida com que me deparei foi uma vida homérica. Como cantava bem os hexâmetros dactílicos e como sabia invocar os deuses, principalmente o do Hades, boca daimoníaca. Mas para ela a Ilíada se divide em mocinhos e bandidos, e assim ela deformava a epopéia e a minha visão de mundo. Isto na melhor das hipóteses, quando não me assumia entre os bandidos e fazia ela mesma guerra contra mim. Alguém quer comprar? Pois eu passei! Não gosto de guerra. Não coaduno com o jogo de força e poder. Próxima! Na sala ao lado, uma vida heraclitiana. Quanta sabedoria naquelas palavras obscuras. Ou quanta obscuridade naquelas palavras sábias. Ou seria quanta obscuridade naquelas palavras obscuras? Já nem sei, falava em enigmas e ainda me exigia bom senso. Mas não era este seu maior problema. O que gerava conflito eram os opostos. Se eu falava: _pequeno!, a vida falava: _grande! Se eu falava: _grande!, a vida falava: _pequeno! _Quente! _Frio! _Doce! _Amargo! E segundo a dita vida era eu que não sabia dialogar. Combate sem fim, passei! Gostou? Leva para casa! Quanto a mim: próxima! Sala grande, uma vida platônica. Esta vida sempre ocupa muito espaço, espaço deste e de outro mundo. Dizia coisas misteriosas que por bom tempo me prenderam a atenção. Na verdade, nem tudo o que ensina dentro, ensina também do lado de fora. Seus ensinamentos me pareceram mais grandiosos nos grandes salões dos Congressos do que na humilde sala de aula. O problema com esta vida é que tem uma obsessão pelas aparências. Faz de tudo para todos crerem que não, mas vive disso. Só aparece em sala de aula de vez em quando e para marcar a presença de seu ser aristocrático. No mais, o grego no papel é dos seus iniciados, a vida corrige o estilo e ganha os louros. Tanto viaja e adula os reis europeus -sempre as aparências!- que acabará extraditada de seu próprio país. Antes disso eu mesma dispensei tal vida. Entre ser e parecer, fico com o ser! Mas uma vida de aparências eu sei que todos compram, nem vou anunciar para não tumultuar. Gostou, leva! Próxima sala, uma vida cínica. Não, este é cínico mesmo. Cinismo, não. Passo! Você não? Puxa! Seus critérios são baixos, heim? Sei, sei, e os meus muito altos. Prefiro assim. Não quero levar gato por lebre, ou concursado por filósofo. Quando achei, enfim, que não havia mais nenhuma sala de aula, nenhuma vida, disseram-me que no D.A. encontraria um epicúreo, uma vida dedicada ao próprio êxtase. Pareceu-me agradável viver assim, só cuidando de mim. Confesso que fiquei tentada a comprar tal vida, mas me pareceu egoísmo viver de tal modo. Como o segredo da felicidade para esta vida é evitar as perturbações, inevitável, então, que excluísse os que causam confusão. _ Porta da rua, serventia da casa!, convidou-me esta vida. Aceitei. Agora, do lado de fora, decepcionada por não ter consumido nenhuma vida filosófica, pergunto-me se não fui ao lugar errado. Quanto a você, sinta-se livre para arrematar o concursado que preferir. Quer um de carne e osso? Pois estão por aí, à venda nas melhores Academias. 

dana paulinelli

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A coluna Flechas de Laocoon apresenta breves reflexões filosóficas por meio de imagens poéticas. Saiba mais sobre esta coluna aqui.